A fé não é a escolha de um programa que me convém


A fé não é a escolha de um programa que me convém ou o ingresso em um clube, no qual me sinto compreendido. A fé é conversão que muda minha pessoa e meus gostos ou pelo menos torna secundários meus gostos e minha vontade. A fé atinge uma profundidade inteiramente diversa daquela da escolha que me liga a um partido. Sua força de mudança é tão grande que a Escritura a caracteriza como um novo nascimento (cf. 1Pd 1, 3.23). Estamos aqui diante de uma percepção importante que devemos aprofundar um pouco mais, porque é neste ponto que se oculta o cerne dos problemas com os quais temos de lidar hoje em dia dentro da Igreja. Temos dificuldade de imaginar a Igreja a não ser nos moldes de uma sociedade autônoma que procura dar a si mesma uma forma, aceitável para todos, valendo-se do princípio de maioria. Temos dificuldade de conceber a fé a não ser à maneira de uma opção por uma causa que nos agrada e pela qual gostaríamos de nos empenhar. Mas em tudo isto os agentes somos apenas nós mesmos.
fé orar

Somos nós que construímos a Igreja, somos nós que tentamos melhorá-la e transformá-la em uma casa habitável. Nós queremos oferecer programas e idéias que sejam simpáticas ao maior número possível de pessoas. No mundo moderno simplesmente já não pressupomos que é Deus quem toma iniciativa e age. Com isto exatamente nos igualamos aos coríntios: trocamos a Igreja por um partido e a fé por um programa partidário. Não se rompe o círculo de nossa própria vontade e de nossos próprios gostos.

Talvez agora possamos compreender um pouco melhor a mudança que a fé significa, a conversão que ela implica: reconheço que é o próprio Deus quem fala e quem age; que não existe apenas a nossa, mas a Sua causa. Mas se isto é verdade, se não somos nós apenas que optamos e agimos, mas se é Ele quem fala e opera, então tudo muda de aspecto. Então devo obedecer a Ele, devo segui-lo, mesmo quando Ele me conduz para onde não quero (Jo 21, 18).

Então torna-se pleno de sentido, torna-se mesmo necessário que eu abandone meus próprios gostos, renuncie a minha própria vontade e siga aquele que é o único que nos pode mostrar o caminho que conduz à vida verdadeira, porque ele mesmo é a própria vida (Jo 14, 6). É este o significado da cruz que Paulo nos aponta no final, como a resposta aos partidos de Corinto (10, 17). Abandono meus gostos e me submeto a Ele. Mas é assim que me torno livre, porque a servidão precisamente consiste em permane­cermos presos no círculo de nossos próprios desejos.

Compreenderemos tudo isto ainda melhor, se o conside­rarmos sob outro ponto de vista, não partindo mais de nós mesmos, mas do próprio Deus e sua iniciativa. Cristo não é fundador de um partido nem filósofo religioso, aspecto este para o qual São Paulo chama enfaticamente a atenção em nossa leitura (1Cor 10, 17). Não é uma pessoa que imagina toda espécie de idéias e conquista partidários para elas. A Carta aos Hebreus expressa o ingresso do Cristo neste mundo com as palavras do Salmo 40: Não quiseste sacrifício e oferendas, mas me preparaste um corpo (Sl 40, 6; Hb 10, 5). Cristo é a própria palavra de Deus que se encarnou por nós. Não é apenas uma pessoa que fala; ele é a Palavra que fala. Seu amor, no qual Deus se dá a nós, vai até ao extremo, vai até a cruz (cf. Jo 13, 1). Se o acolhemos, não escolhemos apenas idéias; mas colocamos nossas vidas em suas mãos e nos torna­mos uma “nova criatura” (2Cor 5, 17; Gl 6, 15).

A Igreja, portanto, não é um clube, não é um partido, nem um Estado religioso dentro do Estado terrestre, mas um corpo, o corpo de Cristo. E por isto a Igreja não é feita por nós; é construída pelo próprio Cristo, ao purificar-nos pela Palavra e pelo sacramento, fazendo de nós seus membros. Naturalmen­te existem muitas coisas que nós próprios estabelecemos dentro da Igreja, porque ela penetra profundamente na esfera prática das coisas humanas. Não quero fazer aqui a apologia de um falso supranaturalis­mo. Mas o que é específico e próprio da Igreja não pode ser fruto de nossas vontades e de nossas iniciativas; não nasce “da carne nem da vontade do homem” (Jo 1, 13). Deve vir de Cristo.

Quanto mais somos nós que fazemos a Igreja, tanto mais ela se torna inabitável, porque tudo o que é humano é limitado e se contrapõe a outro humano. A Igreja será tanto mais a pátria do coração para os homens, quanto mais escutarmos o Senhor e quanto mais ela viver do Senhor: de sua Palavra e dos Sacramentos que Ele nos legou. A obediência de todos a Ele será a garantia de nossa liberdade.

PARTIDO DE CRISTO OU IGREJA DE JESUS CRISTO? Homilia pronunciada no Seminário maior de Filadélfia, Estados Unidos, em 21 de janeiro de 1990 (3º Domingo do Tempo Comum). In Ratzinger, Cardeal Joseph. Compreender a Igreja Hoje. Vocação para a Comunhão. Petrópolis, Vozes, 1992. 93 págs.

fonte: paroquiadapiedade.com.br/…da-fe/a-fe-nao-e-a-escolha-de-um-program…

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